atenção & simancol

elza já não tem mais
pulmões tão ativos

fala tanto que a saliva
rega todo o jardim

o cigarro sempre a
quase cair dos dedos

a boca quase nunca  
dando espaço aos ouvidos

diariamente

acostumei a chegar em casa 
correndo fazer almoço
correndo ensaboar a pele
correndo vestir a roupa
correndo olhar no espelho 
dobrando um pouco os joelhos
para caber o corpo inteiro
menos os pés que estão
sempre a ponto de partir
para alimentar a alma
vender, morrer ou matar, 
que seja
o futuro sempre me deu medo

tenho sentido seu cheiro
tenho sentido dores de cabeça
à tarde e nas madrugadas também
tenho sentido as palavras chegarem
não mansas, mas como tornados
trabalhando pesado na composição
de frases que não
                  eeeee:
                  corta! próxima cena
é a tarde,
a filha diz:
mais para a direita, isso!
                   aí eee:
clique!
o pai sorriu amarelo bem em frente
ao monumento onde foi exposta a cabeça de Tiradentes
tá escrito lá
ninguém sabe o que é
mas todos acham bonito
que as fotos passem de mão em mão
que o tempo passe de mão em mão
como se tivéssemos algum domínio
como se coubessemos todos em pequenos tubos de ensaio

Justos ficamos

justifica a falta
justifica a culpa
justifica a ida
a palavra mal dita
desavisada
chula, porém crua
eu diria: ousada
a palavra é nua
a palavra é brasa
abre-corpo
eu justifico
tu justificas
ela justifica
o incômodo
da presença
da passagem
do tempo
o ser e o não ser
justificamos todos
é justo! Ficamos!
justos ficamos
juntos assim não vamos
a palavra não devia
mas prensa
balanço meu corpo
quando a noite vem
não há água
não há pau
não há palavra
que combine mais
do que sua língua
aqui em mim assim