Eu não sei se já consigo usar o passado pra nós. Esse é o nosso quinto janeiro. Há cinco janeiros o meu amor vive de esperança. Por aqui, chove há cinco verões. Dos calorosos e coloridos verões de sempre, esse chegou ao contrário. Soa estranho falar sobre a estação do calor assim, mas março faz hora pra chegar. Junto com a chuva, janeiro trouxe uma ilusão para afogar todos os meus verbos e suas conjugações futuras e passadas e tanto faz. Uma – mais uma? - tentativa de afogar o meu amar, o meu querer, o meu viver e tirar do fundo dessas lágrimas o meu esquecer, pra lembrar que, a partir do resto desse mês número um, o mês do recomeço, você ficou preso no início de um ano qualquer perdido pela vida. É assim, mas ainda todos os meus verbos caminham direto para sua saliva, vão de encontro com sua piscina de pele clara, fazem morada na água que encharca dos seus cabelos depois do banho e ressurgem nas gotículas de suor depois de um dia de trabalho, mas não morrem nas lágrimas. Transborda você em mim. Transborda amor. Como é patético ainda eu ter amor por você em janeiro. Em janeiro tem excesso de chuva, excesso de lágrimas, excesso de água. Não existe rua para o amor passar em janeiro. Passa sempre na televisão pra todo mundo ver que janeiro não foi feito para amar. Aí, todo mundo chora de uma vez pra acabar com a dor mais fácil. Vamos acabar logo com isso que em janeiro tudo afoga mesmo, não é? Não. O amor não afoga em janeiro. É assim mesmo. Em janeiro, todo mundo chora.
O amor, segundo nós
a gente mistura as falas. as línguas. a sua com a minha.
mistura um mundo inteiro. português. francês. inglês.
sinto o coração fall in love.
o amor passar. so far.
enquanto eu fico, ele vai
saindo pelos dedos do mesmo jeito que um dia saiu pelos poros.
O que a gente não é
eu me lembro de como você me chamava
quando me segurava pelos cabelos
ou, pelo menos, eu imaginava que você me chamaria assim
se fizesse parte disso aqui
alguns elepês na vitrola desgastada
a garrafa de vinho aberta na sala
sujando meu tapete colorido
as cinzas do seu cigarro de sempre
do meu cigarro de nunca
hoje só as cinzas do que a gente virou
depois de tanto eu imaginar
você sentindo amor por mim
fiz poesias para ninguém
me extrapolei pra você
passei dos limites
não nomeei meus parâmetros
meus contornos, que você tanto falou um dia
passei da conta na bebida
na paixão por ninguém
no sexo por acaso
me perdi entre o que sou e o que nunca fui
pra você
por você
mas continuo sendo sua
toda
sua
toda
nua
sempre que você quiser
subindo os morros da sua casa
sem parar para respirar
olhando de lado pro seu sorriso de canto
ouvindo sua voz reclamar
entrando na sua casa
vendo suas paredes - verdes, talvez
falando algo sobre sentir e você entortando
um pouco a cabeça pra me ouvir melhor
eu repito: sentir
e sinto de olhos fechados tudo que não sinto quando olho pra você
e te peço
:me leve pra onde vive o seu sentir
mas já é tarde demais
os sentimentos ficaram encostados num lugar sem acesso
o vinho acabava
a música já não rolava
e eu, como sempre, transitando entre o que sou e o que nunca fui
pra você
por você
quando me segurava pelos cabelos
ou, pelo menos, eu imaginava que você me chamaria assim
se fizesse parte disso aqui
alguns elepês na vitrola desgastada
a garrafa de vinho aberta na sala
sujando meu tapete colorido
as cinzas do seu cigarro de sempre
do meu cigarro de nunca
hoje só as cinzas do que a gente virou
depois de tanto eu imaginar
você sentindo amor por mim
fiz poesias para ninguém
me extrapolei pra você
passei dos limites
não nomeei meus parâmetros
meus contornos, que você tanto falou um dia
passei da conta na bebida
na paixão por ninguém
no sexo por acaso
me perdi entre o que sou e o que nunca fui
pra você
por você
mas continuo sendo sua
toda
sua
toda
nua
sempre que você quiser
subindo os morros da sua casa
sem parar para respirar
olhando de lado pro seu sorriso de canto
ouvindo sua voz reclamar
entrando na sua casa
vendo suas paredes - verdes, talvez
falando algo sobre sentir e você entortando
um pouco a cabeça pra me ouvir melhor
eu repito: sentir
e sinto de olhos fechados tudo que não sinto quando olho pra você
e te peço
:me leve pra onde vive o seu sentir
mas já é tarde demais
os sentimentos ficaram encostados num lugar sem acesso
o vinho acabava
a música já não rolava
e eu, como sempre, transitando entre o que sou e o que nunca fui
pra você
por você
Um dos atos
No vigésimo terceiro andar, acendo um cigarro para tentar diminuir a vida e solto toda a fumaça na sua cara lavada, descarada e sem vergonha. Te seguro pelos cabelos e te empurro pro chão, porque o chão é onde você merece ficar. Falo - em voz alta o suficiente para você me ouvir e baixo o suficiente para o mundo te conhecer: Vadia! Te xingo, te bato e cuspo na sua cara: Vadia! Como eu posso deixar você me levar assim? Chuto o resto de você pro canto da sala e te quebro em diversos pedacinhos miúdos. Não quero mais ver seu sorriso imundo, seus dentes, sentir seu hálito perfeito. Não! Piso sem dó nos pedaços do seu corpo, enquanto vou até a cozinha. Acendo outro cigarro. Você, ali no canto, toda despedaçada. Olho pra você e rio, enquanto as lágrimas caem. O nariz escorre. O copo de uísque na mão. O cigarro se apagando. A cabeça girando. Olho pra mim: rasgado, bêbado, fedido: Filho de uma puta! – e, triste, rio de mim. Olho mais uma vez pra você e te vejo segurando as pernas com medo de mim ou com medo do nosso amor sair rasteiro pela fresta da porta da sala. Ouço você em lágrimas: Fica! No fundo de nós, a música que eu não queria. A vista daqui de cima é bonita, não é, meu amor? – eu disse bêbado. Olho mais uma vez pra você e você me pede de novo. Olhos vermelhos. Olho pra baixo e sussurro: não me deixe acordar sozinho, não me deixe acordar sozinho, amor - e voo livre por aí...
Para o amor - que ainda não me conhece
Ouve? Você ouve daí minhas gargalhadas? Estou rindo de você! Eu rio de você! Rio da sua cara na sua cara! Rio do seu nariz perfeito, do seu sorriso de canto, da sua voz fanhosa. Rio do gesticular das suas mãos, que levam anéis nos dedos do meio. Rio das suas pernas grossas e dos seus pés pequenos. Rio da fumaça do seu cigarro, que passa por mim e finge não me fazer mal. Eu rio do que me faz mal. Dou gargalhadas maléficas que não condizem comigo, porque o amor não condiz comigo. O amor veio e me provou que não condiz comigo! E agora eu grito! E então eu rio da cara do amor. Eu sobrevivi a noites insones sem, ao menos, sentir o calor dos amores passados, só para poder rir da sua cara. Eu não adormeci os olhos para poder, agora, rir de vo-cê. Rio do seu passado cansado, que rasteja por ali, volta por aqui e te machuca e te entrega e te deixa sem saída. O amor te transformou nas cinzas do seu cigarro mal fumado. Cigarros não fumados. Corpos não violados. Cigarros que estragam os corpos, mas enlouquecem o seu sexo. Eu não nasci pra perder! E eu rio de você!
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