Crie asas

Vista suas asas, amor, e voe pela janela
Amor não é só isso aqui
A terra não é pro seu corpo
A vida te convida para bater asas
Vá:
Leve voante rasante
Invente-se no ar
Movimente-se por lá
Vista suas asas, amor, e voe
Voe você voe eu
Vôo da noite sem dono
Te leva
E me leve, amor
Suave no vento: se leve pelo ar.

A sua mão sua

A sua mão sua. Eu sei que a sua mão é sua. Mas a sua mão sua. E eu não te amo mais justamente porque a sua mão sua. Você nunca vai entender nem porque eu não te amo mais nem porque a sua mão sua. Mas isso é verdade. Eu não te amo mais porque a sua mão sua. Pra mim, isto está claro. Eu não te amo mais porque você também nunca soube usar vírgulas. Mas agora que eu não te amo mais pode ser que você aprenda a usar vírgulas. Você sabe que eu prezo o português e que fui eu que te ensinou a usar as vírgulas. Mas eu nunca vou poder ensinar a sua mão a parar de suar. Eu já falei que pode ser psicológico a sua mão suar, mas, claro, você não me ouve. Você pode achar que estou ficando maluca, mas estou falando a verdade. O que? Louca, vagabunda e mentirosa? Sim, eu sei disso tudo. Mas, por favor, eu preciso ressaltar, porque você pode não entender: eu não te amo mais porque a sua mão sua. Sua mão, sua seu pé, sua nuca, seu cabelo, suas costas, suas pernas. Eca! Tudo em você sua e é tudo seu. Tudo, tudo, tudo sua. Você sua. Coisa de maluco isso! E eu não sou sua mais. E não vou ser nunca mais de ninguém que a mão sue. Eu não gosto de pessoas suadas. Quem sua está sempre assim... melando. Suando. E ando, ando, ando... Eternos andos de suando. Meu deus! O que é isso? O que é todo esse vapor? E esse espelho? Meu deus, e esse amor?

Confabular-se

Confabulando-me
te grito um grito atravessado
sem força, rouco e calado
coberto de expressões que meu rosto faz
e aí eu me faço e te faço também
ao te ver leve rua afora
rua e sol afora
sombra e sol lá fora
te solto sem pára-quedas
num abismo delicioso que é o mistério
e sussurro em seu ouvido:
Voe, amor.
Confabulando-me
Caio numa dessas solidões sublimes de ser e viver...

O amor dos dois

O amor dele era um amor negro. O amor dela não tinha cor. Ela sempre olhava o amor assim por sempre amar demais. É aquela história de limites e definição, ela dizia. E amor não deveria mesmo ter cor. Nem cor nem tamanho. Só cheiro... Mas o que são aquelas cores misturadas no medo de ser o amor de alguém? Amor, não é? Então! E ela podia correr para o corpo que quisesse, mas sempre voltava para o mesmo colo. São os círculos da vida. Ele não sabia de amor até conhecê-la. Ela não sabia de amor até conhecê-lo. Nem ela nem ele nem Deus sabiam. Existia ali naqueles olhos um medo de amar demais. Naquele dia, ele virou para ela e disse: agora é primavera, amor. Deixa eu falar sobre as flores de hoje. Não existirá mais um coração em migalhas nem suor depois da cama nem pó de amor depois da cama, ele prometeu. Ouvindo aquilo, o coração dela batucava por debaixo do vestido curto e colorido, mas ele não notava o tamanho do vai e vem descompensado do peito dela. Ele não entendia muito de tamanhos e de cores. Só de cheiro, só dos cheiros dela...

Para Heitor

Ah, Heitor,
solidão mata!
Solidão de olhos aflitos e tristes:
devoram-se.
Não, Heitor, não quero ser consumida por eles,
medíocres, hipócritas, mentirosos! Inventores de vida!
Inventaram também a minha solidão!
Mexeram na dor de um passante.
Eu passei por ali e gritei com o peito doído: Fica!
Fica, Heitor, meu amor...
Me devora, você,
mas me devora com esses olhos pretos, primeiro.
Aflitos e tristes. Presos no seu túmulo de carne e osso.
Me come, Heitor! Começa, assim, devagar,
como quem não quer nada,
me começa pela boca e depois
desce.
Vem, Heitor, meu amor...
Vem que eu amarei pra sempre esse seu sabor de lembranças tristes
que ontem me fez sair por aí e sentir na pele a hipocrisia solitária da vida.