Carta

Eram seis da tarde quando você veio me buscar. Percebi que há muito tempo não ríamos uma da outra. Não misturávamos mais risos e palavras, olhos e desejos, briga e sexo. Nem perna, nem cama, nem noite, nem sono, nem saliva. Me disseram, uma vez, que almas não se separam, mas já andávamos como duas almas separadas pelo barulho da cidade e pelo silêncio entre a gente. Naquele dia, tudo foi diferente. Rimos – será que fizemos o contrário? -, andamos de mãos dadas, trocamos gestos e carinhos. Chegamos a ser um. Ventava, mas não reclamamos do tempo. Nossas conversas no fim do dia balançavam-se entre um beijo e outro, entre um aperto e outro, entre aquele momento, que parecia o início, e o fim. Sua voz delicada não saiu quando chegou a hora de pedir pra eu te esquentar, pra eu ficar pra sempre com você, pra continuar te amando. A minha voz não saiu pra te pedir pra não ficar longe de mim, pra te chamar pra ir comigo descobrir como que se faz pra prolongar o tempo quando se ama alguém que não se quer perder. Nas despedidas as pessoas não riem, meu amor. E era despedida, a gente sabia. Parecia que eu tinha acabado de levar um tapa na cara quando emudecemos. A gente se olhava como se tudo estivesse pronto pro adeus, menos nós. Era o fim. Adiamos nosso abraço com medo de ser o último. Saí com pressa de silêncio, de reconstruir minha alma. Nesse dia, fomos felizes por três horas e nunca mais.

4 comentários:

Marianna disse...

ontem, vi uma moça que lembrava você.

Beijo.

camila disse...

Tudo que você escreve mexe comigo de alguma forma. Esse foi o primeiro texto que deu vontade de chorar, depois te abraçar e não largar mais.

Silvinha Botelho disse...

Deu uma vontade louca de sentar na calçada, acender um cigarro e ver o sol se esconder atrás dos prédios. Depois chorar um pouquinho por tudo o que podia ter sido.
Lindo texto!

T. disse...

Eu tenho medo das coisas que você escreve. É normal ver tanto de mim nas coisas que outro alguém escreve?