essa casa toda escura me dá medo, especialmente essa janela na altura do passeio. seu zé, morador da Jaspen com Salinas, e eu temos em comum alguns hábitos noturnos. o que muda é o estilo do teto. fumamos o último cigarro do dia no mesmo horário. às vezes, até dividimos o momento entre a grade. trocamos o silêncio, temos os pés imundos e pouca esperança no peito. tem dia que minha casa cheira a feijão estragado. hoje, tinha esse cheiro pra todo lado. seu zé come sempre calado o resto da panela e uma vez pediu para fechar a cortina em dias de vento, porque o barulho da persiana rasgada atrapalha o sono dele. o que seu zé queria, na verdade, estava nas entrelinhas: toda noite ele via meus peitos e ficava de pau duro. tinha que correr atrás de alguma puta barata e gastar os trocados do dia. saquei isso quando, outro dia, convidei seu zé para cheirar e fazer poesia. todo verso tinha algo sobre o tema. até câncer de mama apareceu, mas eu disse que não dava pra fazer poesia com câncer de mama. o que não dá é para viver a vida como se tivesse uma 38 apontada pra cabeça o tempo todo, ele disse. rimos de tanto pó entranhado na gente. estávamos loucos. eu ando sem um tostão no bolso. fodida de peito vazio. a vida sem esperança não tem graça nenhuma. nessa noite, dormi olhando para as estrelas. 

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